Minha família materna é maranhense, meu avô é alagoano. Visitei o nordeste muitas vezes quando pequena. Nasci no Rio, morei em São Paulo. Foram 14 anos de sudeste. Quando soube que viria morar em João Pessoa, foi um choque. Eu não queria vir porque não queria deixar meus amigos, meu colégio, todo aquele mundo adolescente seguro e cheio de possibilidades.
Confesso que tinha uma idéia muito reduzida do que era João Pessoa, porque, até um dia desses, era uma cidade sem nenhuma projeção nacional. O nordeste se limitava, há pouco, à Bahia, Natal, Recife. A Paraíba começou a explorar seu potencial turístico somente agora. Quando contei pros meus amigos que viria para cá, foram muitas as piadas: “vai pra escola de jegue!” “Vai arrumar um namorado cabeção!”... E eu juro que fiquei apavorada. Mas eu era jovem e, como a juventude não é desculpa pra desinformação – não nos dias de hoje – era completamente limitada, nesse quesito. O que era a Paraíba, em 1999? Pra mim, só um estado com uma bandeira que dizia: NÊGO. Sim, NÊGO, pois eu pensava que se referia aos negros, e não à frase do presidente João Pessoa. Como já disse Nelson Gonçalves, numa frase que gosto muito, “A ignorância é a Pedra da Gávea”: sempre existiu e vai continuar a existir. Mea Culpa.
Juro que, quando chegamos, me espantei de ter encontrado o Mc Donald’s e outras coisas mais. Porque a idéia que eu tinha de João Pessoa é uma versão light do que se tem dito por aí. E, hoje, fico extremamente chateada porque isso é a mais pura mentira. Me sinto pessoalmente afrontada porque o nordeste é lindo, tem muita riqueza, ao contrário do que os paulistanos e sulistas, principalmente, tem dito. Somos ricos em Petróleo, em refinarias de açúcar, em plantações de abacaxi, algodão, e muitas outras coisas. Coisas que todos vocês, preconceituosos, consomem, sem nem pestanejar sobre o assunto.
Ao contrário do que se tem dito, nós – porque eu também sou nordestina, de sangue e de coração – não somos dependentes de qualquer bolsa, de qualquer governo. Temos intelectuais da mais alta estirpe, desenvolvemos trabalhos acadêmicos e tecnológicos idênticos aos do sudeste e do sul. Temos a faculdade de tecnologia mais aclamada do país – a UFCG, e muitos outros aspectos pessoais e culturais que deixariam qualquer um desses, de mente limitada, completamente embasbacado. Ou não. A ignorância tem certos limites que não permitem a reflexão.
Acredito que a formação política de um indivíduo seja pautada pelos mesmos termos que a religião: alguns seguem a que estão acostumados a ver, em casa, depois encontram alternativas melhores, ou nenhuma. Isso não tem nada a ver com berço, com região geográfica. Tem a ver com escolhas pessoais que qualquer um pode ter. Tenho amigos das mais variadas linhas: filósofo, sociólogo, médico, enfermeiro. A maioria deles tem pós-graduação, especialização, mestrado, doutorado. Todos são nordestinos. Cadê a burrice de que tanto se fala? Eu devo tudo o que aprendi, todo o interesse que tenho pela literatura, pela história e pela arte a amigos nordestinos. Sempre que penso no Rio, minha cidade natal, me custa comparar as informações a que tive acesso aqui com a realidade que vivi lá. E o mesmo acontece quando tento equiparar com o que percebi em São Paulo. Mas, é claro, sempre me concedo o benefício da dúvida.
Aqui, encontrei liberdade, me formei, numa Universidade Federal, encontrei o amor, fiz amigos maravilhosos. Há quase três anos, tive a sorte de ingressar num trabalho que me permitiu conhecer de perto a realidade daqueles que, ao contrário dos meus amigos bem formados, precisam de pouco mais de cem reais para sobreviver. O trabalho na Fundação de Defesa dos Direitos Humanos Margarida Maria Alves me apresentou horizontes completamente obscuros para a classe média, preocupada com o consumo, com o ter e com os Mc Donald’s da vida. Isso porque a pobreza, tanto financeira quanto de espírito nos é invisível no dia-a-dia. Não que esteja escondida: é um dos princípios mais básicos do ser humano a autopreservação. E Narciso acha feio tudo o que não é espelho.
No trabalho social, na iniciativa popular, podemos perceber que existe, sim, muita coisa sendo feita para melhorar a situação dos menos favorecidos, que o são por causa do modelo injusto de nossa sociedade, da dificuldade de se vencer através do mérito quando não se nasceu com algum bem. Porque as pessoas pobres do nordeste – de todo esse país, na verdade, não o são porque o querem. Ninguém quer o pior pra si, dizer isso é uma atrocidade imensa. As pessoas não são preguiçosas. Apenas percebem que, quando não se tem um resultado à curto ou médio prazo de um esforço, é melhor, para continuar sobrevivendo, permanecer recebendo a ajuda do governo. Existem, sim aqueles que são marginais, que gostam mesmo do crime, e que governo nenhum vai conseguir ajeitar. Mas essas pessoas não são a maioria, em nenhum lugar deste país imenso.
Na Fundação, desenvolvemos trabalhos diretos para essas pessoas, através da educação e da promoção do acesso à justiça. Pudemos perceber, nestes 16 anos de estrada, que existem, como em qualquer outra circunstância, os que querem e os que não querem ser ajudados. Infelizmente, os últimos são maioria. Mas é por causa dos que querem melhorar, dos que acreditam que a vida não é só morrer de trabalhar para comprar o pão e que a educação – sua e de seus filhos – é a melhor saída, que os movimentos sociais continuam na ativa. É por causa dessas pessoas que se deve continuar trabalhando.
Por isso, ao invés de usar nossa liberdade de expressão, tão duramente conseguida para dizer asneiras e afrontar quem não merece ser alvo dessas coisas, não vamos ajudá-los? Tenho certeza que qualquer um que utilizou Redes Sociais para tanto mal possui alguma qualidade ou habilidade para passar adiante. Vamos fazer isso? O Brasil inteiro agradece.



